18 / De Manaus a Iquitos. (Parte I)


Esse texto é a reprodução do meu diário de bordo, que mantive durante uma viagem que começou em Manaus e me levou até Iquitos no Peru. Sempre subindo o rio Amazonas. No total foram mais de 20 dias, mas com diversas paradas ao longo do caminho.

19/02/2007 – Segunda-feira

São seis e pouco da tarde no horário de Manaus. Duas horas a menos que Brasília por causa do horário de verão. Escrevo do meu quarto, o Pirarucu, se bem que há uma tartaruga talhada do lado de dentro da porta. É segunda-feira de carnaval, mas daqui do porto mal dá pra perceber.

Os últimos dois dias foram ocupados comprando o “rancho” – alimentação para os próximos 40 dias. O barco vai chegar a ter mais de trinta pessoas em alguns momentos, sem contar a tripulação que passa de dez. Dessa vez teremos um “chef” a bordo. Um norte-americano gordinho e baixinho. Se ele cozinhar como fala de si mesmo a comida vai ser ótima. Jeff é o chefe de cozinha do Los Angeles Lakers e ele adora repetir isso.

A maior parte da preparação do barco para essa longa viagem já havia sido feita pela tripulação, sob orientação do nosso capitão Maciel.

Meu quarto é um pouco maior do que eu havia usado na primeira perna da expedição. Dois metros quadrados. Ao menos dá para esticar as pernas. Até Tabatinga, última cidade em território brasileiro, a previsão é navegar dia e noite por 6 dias.

20/02/2007 – Terça-feira

Como programado nosso barco, o Ariaú Açú, zarpou do porto de Manaus às seis e meia da manhã. O café da manhã foi a base de ovos, como seria pelos próximos 40 dias.

A Pantera Negra uma lancha rápida com capacidade para 20 pessoas e o Marck 5 um bote de borracha com dois motores de popa de 75hp foram amarrados ao nosso barco, formando a fila: Ariaú Açu – Pantera Negra – Marck 5.

Fiquei acordado até quando passamos por Iranduba quatro horas depois. Depois o dia passou devagar como era de se esperar. Floresta e rio. Bonito, mas monótono.

O desempenho do barco está bem melhor que na última vez. Estamos mais leves, o motor foi todo revisado e as hélices trocadas. O capitão Maciel está confiante que chegaremos a Tabatinga no quinto dia. Viajando dia e noite.

Precisamos encontrar um prático em Tefé. De lá para cima ninguém a bordo tem experiência. Provavelmente será um senhor chamado Cristóvão. Ele nos alugou sua voadeira da outra vez e disse conhecer bem a região. Sugeri também que contratássemos um vigia para reforçar a segurança. Há muitos casos de pirataria no alto Solimões, principalmente na região de Tabatinga, fronteira com Colômbia e Peru.

21/02/2007 – Quarta-feira


Hoje, consegui começar uma tímida rotina. Zim é responsável por toda a operação náutica da expedição. Conhece tudo de motor e equipamentos de mergulho. Foi um bom professor, apesar de um pouco confuso. Passamos as primeiras horas do dia montando os dois outros botes de borracha, chamados de Mark 3. Cada um usa um motor de popa de 30hp.

Nosso local de “trabalho” é o terraço do Ariaú Açu que é bem espaçoso e foi projetado para ser um heliponto.

Foi nessa manhã que passamos em frente a Câmara. Fica na margem esquerda para quem sobe o rio, como todas as outras cidades e vilas. Sempre na margem esquerda pra quem sobe ou direita pra quem desce. Roberto, nosso marinheiro de máquina e um tipo “faz tudo”, me disse que esse lugar era usado para plantações de maconha, mas que a Polícia Federal acabou com tudo anos atrás. Hoje o que se vê são belíssimos sítios com plantações de frutas tropicais. Pés de açaí e pupunha carregados. Uma fartura.

Já passava do meio dia quando passamos por Coari.

Ali bem próximo, a Petrobrás administra a província petrolífera de Urucu e tem atividades de extração de petróleo e gás natural. Esse último ainda será extraído. No dia 2 de junho de 2006, o presidente Luís Inácio Lula da Silva inaugurou oficialmente o início das obras de um gasoduto que levará essa forma de energia até Manaus, capital do Amazonas. Jornais regionais anunciaram o ato como o começo da era do gás natural . Por pouco mais de uma hora tivemos sinal de celular, graças às torres de Coari. Por alguns minutos você deixa de lado a monotonia da lenta subida e se vê ao lado de uma pessoa querida. Foi só quando acessei esse outro “mundo” que me dei conta que era quarta-feira de cinzas.

Nas horas mais quentes do dia durmo. Escrevo antes do almoço e depois da sesta. No fim da tarde, faço um pouco de musculação com uns pesinhos que trouxe de Manaus e curto o pôr do sol. Cada dia diferente e cada dia mais bonito.

22/02/2007 – Quinta-feira

Às 5h em ponto, Maciel bateu na porta da minha cabine avisando que estávamos em Tefé.

Paramos o barco em frente à rampa principal da cidade enquanto aguardávamos o dia amanhecer. Com um pouco de claridade, pude perceber que dessa vez a enorme praia em frente a cidade estava completamente submersa. É a cheia na Amazônia e tudo fica diferente.

Nos cobraram 15 reais para amarrar o Ariaú Açu num velho flutuante.

O Pontão (posto de gasolina) abriu e abastecemos o Ariaú com 4016 litros de diesel. Outros 684 litros no tanque da Pantera Negra e mais 1100 litros de gasolina em galões para operar nossos motores de popa. Dona Conceição, nossa cozinheira, e suas duas ajudantes aproveitaram para comprar farinha, frutas, verduras e alguns peixes frescos. A comida tem sido excelente.

Encontramos o Sr. Cristóvão que supostamente seria nosso prático até Tabatinga, mas ele confessou que só conhecia até Jutaí, meio do caminho. Indicou um amigo seu chamado Sadi.

Duas horas e meia depois e R$ 13 mil em combustível, zarpamos. Passava pouco do meio dia. A viagem pela tarde seguiu tranqüila. O dono do Pontão onde abastecemos me deu duas bolas de futebol que acabaram virando meu passatempo favorito. Fico chutando contra os botes salva-vidas do barco e batendo embaixadinhas. É preciso alguma habilidade para não mandar a bola pro rio Amazonas. Perdi uma delas dias depois.

Sadi realmente conhece bem o rio. Ele está sempre evitando o curso principal e usando todos os possíveis furos (atalhos). Assim a viagem fica mais bonita e menos monótona.

23/02/2007 – Sexta-feira


Fiz o turno de vigia das 4h até às 6h da manhã. Logo achei justo dormir até às 8h. Quando abri a cortininha da cabine avistei Fonte Boa.

Subindo o Solimões todas as cidades ficam do lado esquerdo, ou na margem direita para quem desce, como é o correto dizer.

Zim e eu ligamos o compressor de ar que estava na proa e passamos o resto da manhã enchendo os tanques de mergulho. Enchemos 6 tanques de 80 “cubic feet” cada um.

Durante a tarde o único trabalho foi decidir o próximo local para abastecer. Ao invés de Jutaí, por onde passamos por volta da 17h, optamos por abastecer na manhã seguinte em Santo Antônio do Iça.

A foz do rio Jutaí com o Solimões forma paisagens deslumbrantes. Aqui bem perto está a Estação Ecológica Jutaí-Solimões.

24/02/2007 – Sábado


Dormi mal e acordei tarde. Às 7h30. Logo depois chegamos a Santo Antônio do Iça onde completamos o tanque do Ariaú-Açú. Outras duas horas e meia de abastecimento e 3 mil litros de diesel.

Quando Zim e eu curtíamos o vizual do terraço do barco, presenciamos o fenômeno natural mais incrível de nossas vidas, da minha pelo menos. Primeiro foi um grande estalo. Como um tiro vindo da mata próxima. Navegávamos a poucos metros do barranco. Logo depois, quase na nossa frente, uma árvore do tamanho de uma castanheira adulta veio abaixo lentamente. O som é inigualável. Creq, creq, creq, creq ... Foi uma queda em câmera lenta até que a imensa e verde copa mergulhar nas águas marrons e fortes do Amazonas. Tudo bem ali. Na nossa frente. Há poucos metros. Naquele momento exato, o tempo parou e a Natureza nos mostrou do que é capaz e como age. É o milenar ciclo desse grande rio, o maior do mundo, que constantemente vai alterando o seu curso e forçando novas passagens e paisagens. Sem mais palavras.

Agora de noite, pegamos nossa primeira grande tempestade, ou melhor, foi ela quem nos pegou. O rio fica ainda mais selvagem quando iluminado pelos raios.

19 / De Manaus a Iquitos. (Parte II)




25/02/2007 – Domingo


Quando começava minha leitura matinal, confortavelmente instalado na rede amarrada na popa do barco, uma voadeira com três tripulantes se aproximou. Um deles num português difícil de entender perguntou se Jean Michel Cousteau estava a bordo.

Eles eram da equipe do nadador esloveno Martin Strel, que está nadando o rio Amazonas, desde próximo a nascente no Peru até a foz em Belém. Sempre em direção a leste. Descendo o rio. Havíamos passado por ele há poucos minutos, mas não o vimos pois ele vinha descendo pela outra margem. Aqueles três eram parte da equipe dele.

Imediatamente, soltamos o Mark 5 e fomos até o encontro desse maluco. Quem nos recebeu no barco de apoio da equipe dele foi o Sr. Miguel, um simpático empresário de Manaus que eu já conhecia. Ele é dono de um flutuante no rio Cueiras onde realizávamos algumas pesquisas meses atrás. Infelizmente não o reconheci naquele momento.

A equipe é enxuta, talvez sete pessoas. Impressionante é o sistema de internet móvel montado no barco. Ele permite até a transmissão de vídeos do meio do rio Amazonas, aproximando o nadador com um possível espectador em qualquer parte do mundo e em tempo real. Impressionante. Nesse momento me dei conta de como as distâncias são relativas e a proximidade é imperante.

Martin interrompeu sua natação para uma sessão de fotos. Simpático ele não parava de sorrir e tampouco parecia cansado. Acho que uns dois meses depois ele chegou em Belém após completar 5.430 km de braçadas.

Logo depois desse histórico encontro, passamos por um posto da Polícia Federal. Os agentes foram cordiais e sequer exigiram documentações. Mas pasmem, não tinham internet! Perguntei a um dos mais jovens, um mineiro concursado que provavelmente não esperava ser mandado para tão longe, porque não instalava um sistema de internet como o do nadador. Ele justificou que seriam necessárias licitações, documentos e papeladas de Brasília, São Paulo e Manaus.

- Uma causa perdida, me disse constrangido.

A verdade é que é vergonhoso termos um posto da Polícia Federal tão próximo à fronteira com dois países (Colômbia e Peru) que sequer dispõe de acesso à internet.

Trabalhamos nos equipamentos de mergulho pelas próximas cinco horas. Começava a escurecer, quando chegamos a Tabatinga. O Peru estava a poucos metros subindo o rio na margem esquerda. A Colômbia à nossa direita no alto do barranco. Missão cumprida em território brasileiro.

05/03/2007 – Segunda-feira

Passamos oito dias na região de Tabatinga e Letícia (Colômbia). Em três desses dias fomos ao rio Javari sob a orientação do francês que mora em Bogotá, Yves Lafreve. Experiente mergulhador e “under-water-film-maker” Yves trabalha com os Cousteaus desde o tempo de Jacques.

No entanto, nossa ida a esse rio que delimita grande parte da nossa fronteira com o Peru foi praticamente inútil. Atracamos o barco em frente a uma pequena reserva particular chamada Palmari que pertence a um alemão residente em Bogotá. Não encontramos água com boa visibilidade para mergulho e tampouco vida selvagem

Um fenômeno pouco usual aconteceu quando estávamos por lá: o rio Javari baixou muito em poucos dias. Muito estranho pois nessa época era para as águas ainda estarem subindo. Milhares de peixes e outros animais morreram. O cheiro de podridão era terrível. Vimos peixes e até arraias penduradas em galhos de árvores que deveriam estar submersos.

Voltamos a Tabatinga onde passamos mais três dias providenciando a documentação necessária para deixar o Brasil. Saímos hoje, por volta das 11h da manhã, e entramos em águas peruanas. Para um observador atento, mas sem muito conhecimento sobre a vegetação, o cenário é exatamente o mesmo em comparação com o do lado brasileiro. Talvez existam mais ribeirinhos por aqui. No resto é tudo igual: o grande rio, suas águas marrons, a floresta imponente e sempre plana nos barrancos e um sol escaldante durante o dia. Até às 21h, navegamos tendo a Colômbia sempre a nossa direita e o Peru a nossa esquerda. Depois é Peru dos dois lados, o limite é um rio chamado Taquari.

07/03/2007 – Quarta-feira

Finalmente Iquitos. As instruções que tínhamos de nosso agente Mario Escobar na cidade peruana eram as seguintes:

“Desearía que informe al capitán de la nave que el día que arribe a Iquitos trate de comunicarse por costera por VHF por frecuencia 5885, que a partir de indiana ya tiene alcance y que deben de navegar de frente hasta el muelle de ENAPU para recepcionar la nave.

También le informo que día de hoy me han confirmado en ENAPU que podrían amarrar en una área pequeña que tiene ENAPU e costaría $ 25,00 diario, porque estar amarrado al muelle principal su costo es de $ 100,00 diario.

No es recomendable quedarse en bahía por ser peligroso en las noches.

Con relación al dinero, me sobra disculpar que no le haya confirmado su recepción, pero ya se encuentra en mi poder.

Sr. Max, desearía que nos enviar por mail la documentación del zarpe de la nave (Declaración general, rol de pasajeros, rol de tripulantes, store list, efectos personales, manifiesto de carga)”.


Iquitos é uma cidade ainda parada no tempo. A melhor informação diz respeito ao fato de ela ser a cidade onde está o porto fluvial mais distante do mar de todo o planeta. Se alguma mercadoria tem que sair de Lima para Iquitos, o caminho mais perto, caso avião não seja uma possibilidade, é ir pelo canal do Panamá, entrar no rio Amazonas via Belém e subir o rio por mais de 3 mil quilômetros. Nem precisa dizer o quanto é isolada. Ainda assim é a maior cidade da Amazônia peruana.

Uma boa maneira para se ter uma idéia de Iquitos é assistir ao filme “O Pantaleão e as visitadores”, inspirado no livro de mesmo nome do escritor peruano Mario Vargas Llosa.

20 / Tamanho é documento.


“O tamanho de uma área de floresta tropical é mais importante para a ocorrência de espécies de pássaros do que seu relativo isolamento”.

Esse é resultado de um estudo feito por cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e pelo H. John Heinz Center for Science, Economics and the Environment, e publicado na Science de 12 de janeiro de 2007, com o título "A Large-Scale Deforestation Experiment: Effects of Patch Area and Isolation on Amazon Birds".

Pássaros. E daí?

E daí que a tal da quantidade de espécies de pássaros é um indicador de biodiversidade e esse resultado está diretamente relacionado não somente com a escolha de áreas para criação de reservas e/ou parques, mas também para definir qual o tamanho mais apropriado para essas áreas e consequentemente sua forma de gestão. Para a Amazônia, segundo o estudo em questão, fica evidente a importância de se proteger grandes áreas de floresta primária.

Mas afinal o que é essa tal biodiversidade?

Biodiversidade é toda a variedade de organismos vivos em todos os ecossistemas do planeta. Inclui também todas as interações e processos entre esses organismos, populações e ecossistemas. Entre os argumentos que justificam a importância ecológica e econômica destacam-se:

+ A biodiversidade facilita o funcionamento dos ecossistemas, permitindo que o planeta se mantenha habitável (por exemplo: trocas de carbono, manutenção das fontes de água superficial e subterrânea, proteção e fertilização dos solos, regulação da temperatura de do clima, dentre outros);

+ Oferece valores estéticos, científicos, culturais, dentre outros valores universalmente reconhecidos, mesmo sendo intangíveis e não monetários;

+ É a fonte de muitos produtos utilizados pela sociedades contemporâneas: alimentos, fibras, produtos farmacêuticos, químicos etc., além de ser a principal fonte de informações para o desenvolvimento da biotecnologia;

+ A biodiversidade é a base para as culturas agrícolas e para o melhoramento e desenvolvimento de novas variedades;

+ A beleza e a singularidade de diversos ecossistemas têm valor para uma série de atividades recreativas e de ecoturismo.


Os resultados desse estudo fazem parte de uma enormidade de pesquisas realizadas sob o guarda-chuva Projeto de Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais, ou simplesmente PDBFF. Com recursos do INPA e pelo Instituto Smithsonian foi iniciado em 1979 quando o governo do estado do Amazonas destinou uma área de aproximadamente 500 mil hectares nos arredores de Manaus para ser explorada comercialmente, ou seja, para a formação de fazendas.

A legislação brasileira por meio de seu código florestal obriga os fazendeiros a manter boa parte de floresta intacta em suas propriedades e o tamanho dessas áreas varia de Estado para Estado. Na Amazônia Legal é de 80%, mas há um perigoso movimento na Camera dos Deputados para diminuir para 50%. Como as fazendas seriam abertas de qualquer maneira os pesquisadores do PDBFF escolheram 23 fragmentos florestais, variando entre 1 e 1000 hectares, em meio a pastagens e florestas contínuas e assim estudar a dinâmica biológica desses fragmentos.

A missão do PDBFF é determinar as conseqüências ecológicas da perda de habitat e fragmentação das florestas, e disseminar essa informação para aumentar a conservação e o uso racional dos recursos florestais.

Regina Luizão, PhD, que aparece na foto no começo do texto, é a atual responsável pelo PDBFF. Estivemos em um dos oito acampamentos para pesquisa que ela coordena de seu escritório no INPA em Manaus.

Ela explica o chamado efeito de borda a Jean Micheal Cousteau:

“...depois de abandonadas, as pastagens viram capoeiras que começam a invadir os fragmentos de floresta e competem por espaço, luz e nutrientes. É uma transição brusca entre os dois habitats que não aconteceria em ambiente natural. A luz que penetrava apenas verticalmente passa a penetrar horizontalmente mudando o micro clima dessas áreas e afetando seus processos ecológicos”.


Entre outros resultados do PDBFF destacam-se:

· A fragmentação das florestas resulta numa substancial perda de biomassa florestal, principalmente pela elevada mortalidade de árvores.

· Grandes árvores são mais vulneráveis à fragmentação.

· Perda de biomassa em fragmentos florestais é uma fonte significativa de gases de efeito estufa.

· A fragmentação seguida da perda de habitat é a principal ameaça nos ecossistemas florestais.

A perda de biodiversidade é um problema global que requer soluções globais. O Brasil, devido principalmente aos dois terços que detém da bacia do rio Amazonas, é o país de maior importância nesse contexto. Temos a ciência a nosso favor como procurei demonstrar nesse relato. É preciso coragem política para ignorar alguns interesses locais e aproveitar as oportunidades que esse contexto nos oferece.

21 / Voando por cima.


Para entender a magnitude da Amazônia é preciso sobrevoá-la. É impossível ter a dimensão de seu espaço sem sair do chão. E mesmo voando não é tão simples assim. Por isso, durante duas semanas, sobrevoamos a grande floresta seguindo de Manaus, passando por Alta Floresta, Santarém, Macapá, Laranjal do Jarí, retornando a Santarém e a Manaus.

O Grand Caravan que alugamos era muito maior e mais bonito do que imaginava. Foi amor à primeira vista. É o único monomotor autorizado a transportar um presidente dos Estados Unidos, segundo me disse Cleiton, dono da empresa de Táxi Aéreo e dono do PT-PTB.

A outra opção que tinha era alugar dois Cessnas 210, mas fui desencorajado por meu pai que se referiu a esses aviões como "jacas voadoras". Ele, que pilota desde os 14 anos e tem centenas de horas de vôo por esses sertões do Brasil e até do Paraguai, ficou assustado quando eu disse que faríamos vôos de até quatro horas por cima de florestas intocadas.

Lá no aeroclube de Manaus a coisa foi ficando um pouco mais animadora: “Visibilidade de 10 km, probabilidade de chuvas e trovoadas de 40 %”, disse o controlador de vôo pelo rádio antes de decolarmos. Saímos de Manaus às 9h30 com destino a Alta Floresta no norte do Mato Grosso.

O tempo estava bom. Algumas nuvens impediam uma total visão horizontal, mas olhando para baixo se via tudo perfeitamente. E como é grande a floresta. Depois de vinte minutos, após termos cruzado o rio Jurema, um dos principais afluentes do rio Madeira, iniciou-se uma formação interessante que, segundo nosso piloto, era o começo da Serra do Cachimbo. A floresta tropical ali cede espaço para áreas descampadas. Do alto avista-se facilmente o solo arenoso e muitas rochas até então ocultados pelo tapete de árvores.

Próximos ao município de Apiacás, já no Mato Grosso, foi possível ver as primeiras grandes fazendas de gado. A partir desse ponto até Alta Floresta, que era o nosso destino, já não havia mais continuidade na floresta. O que se via eram grandes fragmentos verdes em meio às pastagens. É bem ali que fica o “arco do desmatamento”.

Nossa aterrisagem no pequeno aeroporto de Alta Floresta foi bem tranqüila. Um funcionário da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), tipicamente querendo demonstrar sua imbecil autoridade, nos causou dois problemas: primeiro multou nosso piloto por ter removido o último banco do avião para melhor transportar todos nossos equipamentos. Depois nos impediu de levantar vôo num outro pequeno avião (Cessna 206) sem a porta traseira para sobrevoar e filmar a região. Perdemos a tarde de trabalho e só no outro dia levamos o 206 para uma outra pista próxima e, sem a tal da porta, voamos do mesmo jeito.

Conhecemos dona Vitória em seu confortável hotel Floresta Amazônica. Seu pai foi o responsável pela colonização de toda aquela região. Recebeu uma enorme quantidade de terras do Governo Militar para distribuir aos novos colonos e investidores no final da década de 70.

Hoje, além do hotel, ela preside a Fundação Cristalino, que é responsável por ações conservacionistas na região. Entre outras frentes, ela luta para criação e ampliação do Parque Estadual do Cristalino, com área de aproximadamente 135 mil hectares. O parque está exatamente na divisa entre o Mato Grosso e o Pará, e reúne sete diferentes ecossistemas. Não bastasse isso, é considerado a melhor área para observação de pássaros de toda a Amazônia brasileira.

Logo cedo, fizemos o sobrevôo planejado para a tarde anterior. Em menos de uma hora voando Sul, em direção ao município de Sinop, foi possível avistar as primeiras plantações de soja. É bem fácil ver a diferença lá de cima: as áreas são nitidamente mais limpas do que aquelas usadas para o gado. Em duas fazendas avistadas a colheita estava sendo realizada bem na hora em que as sobrevoávamos.

Depois de três horas de vôo, reencontramos nossa equipe em Alta Floresta. Combinamos nossa próxima decolagem rumo à Fazenda Bacaeri, onde passaríamos alguns dias. No caminho, o plano era filmar nosso PTB do pequeno e mais lento 206. Como os dois pilotos eram muito experientes, conseguimos excelentes tomadas. Em alguns momentos as aeronaves se separavam por apenas alguns metros, numa altitude de 2000 pés. Para mim, que estava no 206 sem uma das portas, o barulho era enorme e a adrenalina ia às alturas. Depois da aventura, aterrisamos na fazenda e fomos recebidos com um belo churrasco.

Contei a história de seu Antônio no relato “Alta Floresta e o Arco do desmatamento”. Me lembro que ao final da entrevista, perguntamos a ele se havia algo a ser dito: entusiasmadamente ele criticou as pessoas que se dizem “experts” em Amazônia, sem nunca ter estado ali uma única vez. Ele aproveitou para falar também do quanto é burra uma legislação que apenas restringe, sem criar qualquer oportunidade às pessoas que vivem no local. Depois do almoço, nosso destino era Macapá com uma escala para abastecer em Santarém.

O Sul do Pará nas proximidades do rio Tapajós está ainda bem conservado, principalmente pela existência de inúmeras terras indígenas naquela região. De cima foi possível avistar enormes crateras em meio à floresta. São resquícios de garimpos hoje totalmente abandonados.

Por alguns momentos sobrevoamos a BR-163. Esse é o trecho que ainda não está asfaltado e por isso, em sua maior parte, ainda é uma estrada de terra que corta a floresta. No entanto, a quantidade de ramificações é bem grande, em geral estradas ilegais abertas para extração de madeira.

Desde o começo dessa expedição aérea sabíamos que em algum momento pegaríamos chuva. A primeira que enfrentamos foi bem na altura do município de Novo Progresso. Com esse nome fica fácil imaginar a situação: as fazendas são enormes e a floresta deixa de ser soberana. Só nos últimos cinco anos a população do município dobrou, chegando a 40 mil habitantes, sendo que as principais atividades comerciais são relacionadas à madeira e à pecuária.

Contornamos nuvens carregadas até a proximidade de Santarém, onde há bastante soja plantada, mas nada comparado a áreas agrícolas mais importantes como aquelas no norte do Mato Grosso.

Rápida abastecida em Santarém e ao final do dia decolamos com destino a Macapá. À nossa esquerda, olhando para Oeste, um deslumbrante pôr-do-sol sobre a gigantesca área alagada que marca o encontro dos rios Tapajós e Amazonas. Ilhas compridas e canais dourados faziam confundir o percurso do grande rio.

Nossa volta a Manaus foi um vôo noturno e pouco pude observar. Dias depois terminávamos os trabalhos de filmagens que duraram quase cinco meses. Logo após, peguei um outro avião, dessa vez convencional, para São Paulo e depois para Nova Iorque onde hoje me encontro estudando. Nesse vôo, sem conseguir dormir e pensando em tudo que havia vivido no último ano, escrevi em meu diário (e aqui encerro essa série de 21 relatos):

Há pouco mais de um ano cheguei em Manaus. Estava confuso, ainda incerto se havia feito a escolha certa. Afinal, a decisão de me mudar para cá havia sido somente minha.

Foi uma adaptação difícil, complicada. O que me ‘salvou’ foi o grande interessante nos trabalhos que realizei. Primeiro no Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ) e depois ajudando a produzir o filme “Return to the Amazon”, com Jean Michel Cousteau. Experiências diferentes e muito ricas. No primeiro, tive a oportunidade de conhecer uma realidade bem a fundo e também me envolver diretamente com a iniciativa pública, tanto estadual como federal. Aprender os métodos e buscar alternativas para a lenta e muitas vezes ineficiente burocracia governamental no Brasil é algo que não quero mais deixar de fazer. No segundo, viajei. Viajei muito: de barco, de avião, caminhonete, lancha, voadeira, canoa de madeira, moto e até de helicóptero. Fui a lugares e regiões tão diversas que é no mínimo simplista defini-las como Amazônia.

Parto daqui sabendo que volto. Saio um pouco mais confuso do que quando cheguei. A diferença é que na chegada a confusão era em relação a eu próprio. Agora é sobre os métodos e caminhos para equacionar e solucionar os problemas e desafios que essa fantásticas região nos apresenta. E também como aproveitar suas incontáveis oportunidades.

Ao mesmo tempo que tudo isso aqui deixou de ser um enorme espaço em branco (ou verde) no meu mapa do Brasil, também me dei conta que sei ainda menos de tudo o que vi e experimentei. É como saber menos, mas num nível mais elevado. Estranho, mas agradável.

Já tenho saudade de navegar nas imensidões desses rios.

No entanto, sei que parto para também evoluir. Sem essa experiência tatuada em minha pele, sei que não teria sido aceito num respeitado centro de educação que é a Universidade de Columbia. Vou para Nova Iorque para aprender mais da Amazônia.

O futuro daqui dependerá de atitudes governamentais. Isso não quer dizer “transferir a responsabilidade”, como muitos sempre esperam do governo no Brasil: “ah é culpa do governo”. Não. É papel de cada cidadão, morador ou não da região, mas por via do governo, por via de políticas públicas que considerem as complexidades e aproveitem as oportunidades que o contexto internacional nos oferece nesse começo de século.

A questão fundiária e de zoneamentos é urgente. A legislação que temos é boa, mas precisa ser aplicada, implementada e “en-forçada”.

Por último, se os benefícios são globais, que nós brasileiros tenhamos a visão necessária para saber tirar proveito de deter mais de 60% da Amazônia e da maior diversidade biológica do planeta.